O Blues não é apenas um gênero musical. É uma forma de organizar sentimentos, tempo e memória a partir da voz. Antes de qualquer estrutura harmônica, antes da canção como produto, existe o canto, o gesto sonoro, o murmúrio, a repetição insistente de um estado emocional que não se resolve. É a partir desse território — entre fala, música e experiência humana — que o Blues se constitui. Ao longo deste texto, o Blues é observado desde suas origens vocais e corporais, passando pela letra, pela relação entre canto e instrumento, pelas microafinações, pelas blue notes e pela forma cíclica que suspende o tempo. A história atravessa o trabalho, a segregação racial, o acesso a instrumentos como violão e gaita, a chegada da gravação, o impacto da tecnologia e o confronto com a indústria cultural, sem perder de vista aquilo que permanece: a centralidade da voz e do sentimento. Mais do que uma análise musical, o que se desenha aqui é uma leitura cultural do Blues como linguagem viva — uma música que não avança para um desfecho, não fecha narrativas e não promete superação. O Blues insiste. E é nessa insistência, entre canto, repetição e tensão, que ele revela sua força expressiva e sua diferença radical em relação a outras formas de canção.