O Blues, enquanto gênero musical, é caracterizado por um conjunto de padrões e regras formais que lhe conferem identidade. Abordaremos aqui o modelo mais comum e tradicionalmente estabelecido: o Blues de 12 compassos. Essa estrutura se consolidou no início do século XX, coincidindo com o momento em que os cantores de Blues passaram a ter acesso ao violão. É fundamental notar que, durante o período da escravidão nos Estados Unidos, os africanos escravizados foram proibidos de portar e tocar qualquer instrumento musical de sua cultura original. Dessa forma, o canto, muitas vezes realizado durante o trabalho, era a única expressão musical permitida.
A Origem Melódica e a Influência Africana
Devido à segregação racial, houve pouca troca cultural direta entre as populações negra e branca. Ao mesmo tempo, a conexão com a cultura e a música africana original era mantida apenas pela transmissão oral, de geração para geração, entre aqueles que haviam sido trazidos da África.
As melodias transmitidas não seguiam a escala ocidental temperada. Elas representavam uma forma distinta de pensamento musical, marcada pelo uso de microtons ou microafinação, resultando em uma escala não temperada, que se assemelha mais de perto à variação natural da voz humana. Posteriormente, no sistema ocidental, essas melodias foram analogamente categorizadas como utilizando a escala pentatônica ou pentablues.
Esses trechos melódicos, frequentemente entoados durante o trabalho, eram quase lamentos, mas já incorporavam a língua inglesa. A única troca cultural permitida aos escravizados foi a evangelização, dando origem aos spirituals. Neles, esses lamentos começaram a ser moldados como súplicas ou louvores a Deus, mantendo, contudo, a melodia de origem africana.
Com o fim da escravidão no século XX, mas com a manutenção da segregação racial imposta pelas Leis Jim Crow no Sul dos EUA, o lamento de campo começou a se estruturar em uma forma musical mais definida.
Conceitos Estruturais: O Chorus de 12 Compassos
Para compreender essa estrutura, é preciso entender o conceito de Chorus. Em termos musicais, o Chorus é um bloco de compassos predeterminado, onde o tema principal da música é apresentado. Em gêneros como o Jazz, por exemplo, o tema é exposto (geralmente cantado), seguido por um espaço para a improvisação, antes de retornar ao tema. Cada execução completa do tema (cantado ou improvisado) é denominada Chorus.
No Blues, o Chorus do formato tradicional de 12 compassos segue uma estrutura harmônica fixa. Embora pequenas variações sejam possíveis, a seguir detalhamos o padrão dominante e mais utilizado.
A Harmonia Padrão do Blues de 12 Compassos
A progressão harmônica tradicional pode ser visualizada em três linhas de quatro compassos cada:
| Linha | Compassos | Grau Harmônico | Duração | Função |
| 1ª | 1, 2, 3, 4 | I (Primeiro Grau) | 4 compassos | Tônica (menor tensão) |
| 2ª | 5, 6 | IV (Quarto Grau) | 2 compassos | Subdominante (tensão intermediária) |
| 7, 8 | I (Primeiro Grau) | 2 compassos | Tônica (menor tensão) | |
| 3ª | 9 | V (Quinto Grau) | 1 compasso | Dominante (maior tensão) |
| 10 | IV (Quarto Grau) | 1 compasso | Subdominante (tensão intermediária) | |
| 11 | I (Primeiro Grau) | 1 compasso | Tônica | |
| 12 | V (Quinto Grau) | 1 compasso | Dominante (Turnaround) |
Os acordes são, via de regra, executados com sétima dominante (V7).
O Turnaround e a Estrutura Poética (AAB)
Os compassos 11 e 12, que encerram o ciclo, são cruciais, pois neles ocorre o Turnaround. O Turnaround é uma frase instrumental de ligação que reconduz a harmonia e o ritmo ao primeiro grau, iniciando um novo Chorus. Ele funciona como um loop, sendo usualmente construído com clichês instrumentais.
É vital ressaltar que o Blues se origina no canto e na melodia, e só depois recebe a harmonia, que serve para "colorir" essa linha melódica. A melodia é sempre cantada com letra, configurando uma forma poética. O modelo poético que se consolidou como o mais conhecido é o formato AAB. (Embora haja notações que o dividam em ABC, focaremos no AAB como principal).
A estrutura do verso no modelo AAB se encaixa nos 12 compassos da seguinte maneira:
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Verso A (Linha 1): Define o mote, o tema ou a provocação do Chorus. A frase musical A (letra e melodia) é cantada nos primeiros dois compassos (1 e 2), sobre o Primeiro Grau. Os dois compassos seguintes (3 e 4) são instrumentais, servindo como resposta (solos de guitarra, gaita, piano, etc.).
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Verso A (Linha 2): Repetição da frase musical A sobre o Quarto Grau (compassos 5 e 6). Essa repetição pode apresentar pequenas variações melódicas, geralmente no início, para se adequar à nova harmonia. Os compassos 7 e 8, que retornam ao Primeiro Grau, são novamente de resposta instrumental.
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Verso B (Linha 3): Apresenta o desfecho, o fechamento da história ou do clima estabelecido. O verso B é cantado sobre o Quinto Grau (compasso 9) e o Quarto Grau (compasso 10). Os dois compassos finais (11 e 12) são instrumentais e abrigam o Turnaround, preparando o recomeço do ciclo.
Em resumo, a estrutura se dá pela alternância: dois compassos cantados seguidos por dois compassos de resposta instrumental, repetida na primeira e segunda linhas, e um desfecho cantado na terceira linha, seguido pelos dois compassos instrumentais do Turnaround.
Exemplos da Estrutura A / A / B em Clássicos do Blues
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1. Sweet Home Chicago — Robert Johnson
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A: Come on, baby, don't you wanna go
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A: Come on, baby, don't you wanna go
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B: Back to the land of California / To my sweet home Chicago
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2. Dust My Broom — Elmore James
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A: I believe, I believe my time ain't long
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A: I believe, I believe my time ain't long
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B: I ain't gonna leave my baby / And break up my happy home
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3. Every Day I Have the Blues — Elmore James
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A: Every day, every day I have the blues
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A: Every day, every day I have the blues
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B: Speaking of bad luck and trouble, now, / it's you I hate to lose
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4. The Sky Is Crying — Elmore James / Stevie Ray Vaughan
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A: The sky is crying, look at the tears roll down the street
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A: The sky is crying, look at the tears roll down the street
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B: I'm waiting in tears looking for my baby, / and I wonder where can she be?
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5. Let Me Love You Baby — Willie Dixon / Buddy Guy / SRV
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A: Well now, oh wee baby, you know I declare, you sure look fine
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A: I said, ooh whee baby, you know I declare, you sure look fine
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B: Well there's a girl like you a make many a man change his mind
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Exemplo da Estrutura Melódica A / B / C (Variação dos 12 Compassos)
A estrutura harmônica de 12 compassos pode acomodar uma variação melódica onde os versos são distribuídos como ABC.
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Verso A (Linha 1): É um verso mais longo e textual, ocupando os quatro primeiros compassos por completo (sobre o Primeiro Grau).
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Verso B (Linha 2): Verso curto, de função semelhante ao modelo AAB, que entra quando a harmonia se move para o Quarto Grau (compassos 5 e 6), retornando ao I Grau (7 e 8).
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Verso C (Linha 3): É o desfecho final, seguido imediatamente pelo Turnaround (compassos 11 e 12), fechando o ciclo.
Exemplificando com outro trecho de Sweet Home Chicago:
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A
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Now one and one is two
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Two and two is four
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I'm heavy loaded, baby
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I'm booked, I gotta go
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B
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Crying baby
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Honey, don't you want to go?
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C
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Back to the land of California
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To my sweet home Chicago
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O Uso de Paradinhas (Stop-Time, Stops, Breaks)
Muitas composições de Blues utilizam as paradinhas (stop-time ou breaks), especialmente no início. Nesse recurso, a banda pausa a sustentação rítmica e harmônica, deixando a voz isolada ou fazendo ataques rítmicos pontuais ao final das frases cantadas. As paradinhas, quando presentes, ocorrem sempre na primeira linha, sobre o Primeiro Grau.
Quando o stop-time é empregado, os quatro primeiros compassos permanecem nesse formato (voz isolada seguida de ataques). A banda só entra com a seção rítmica e harmônica completa a partir da segunda linha, seguindo até o Turnaround. Algumas músicas usam o stop-time em todos os choruses, enquanto outras o utilizam apenas na introdução.
Um exemplo claro é “You’ve Got to Love Her With a Feeling”, de Freddie King. A música segue a estrutura A-B-C dentro dos 12 compassos, e o stop-time é aplicado consistentemente no Verso A (quatro primeiros compassos) a cada repetição:
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A (com stop-time)
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Now, if you wanna love that woman
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Ah, you love her with a thrill
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'Cause, ah, if you don't
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Ah, some other man will (crescendo para entrada rítmica completa)
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B
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You gotta love her with a feeling
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You gotta love her with a feeling
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C
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Love her with a feeling, babe
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Or don't you love at all (Turnaround)
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Outro exemplo notório é “Hoochie Coochie Man”, de Muddy Waters, que usa o stop-time de forma expandida. Na seção das paradinhas, o Blues pode se estender para mais compassos — chegando a dezesseis —, pois a letra é recitada sobre o Primeiro Grau por um tempo maior, com a banda executando um riff instrumental.
Quando a banda entra por completo, ela o faz diretamente no Quarto Grau. Além disso, é comum que a seção instrumental de improvisação abandone o stop-time, retornando ao formato tradicional de doze compassos.
Estrutura de abertura de “Hoochie Coochie Man” (modelo expandido com stop-time):
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A (Expandido, com Stop-Time): The gypsy woman told me… (Ataque da banda)
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A (Repetição, no I Grau): She said you’re gonna be the… (Ataque da banda)
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A (Continuação, em Stop-Time): You’re gonna be the hoochie coochie… (Ataque da banda)
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Entrada da banda no Quarto Grau (Fim do Stop-Time): Everybody knows I'm… (Segue harmonia normal)
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Desfecho + Turnaround: Lord, I'm your…
A Relação Harmonia-Melodia: Tensão e Repouso
A harmonia é o elemento que confere contraste à melodia. Em uma analogia visual, a melodia (o canto) seria a figura em primeiro plano, enquanto a harmonia seria a paisagem de fundo. A harmonia estabelece o contexto emocional da melodia.
Em músicas convencionais, busca-se o repouso harmônico. As composições tipicamente começam na tônica (repouso), criam tensão e retornam ao repouso. No Blues, no entanto, a presença constante de acordes com sétima lhes confere uma função de acorde dominante, impedindo a sensação de repouso completo.
O que se estabelece, então, é uma gradação entre menos tensão e mais tensão.
A harmonia do Blues transita entre o Primeiro (I), Quarto (IV) e Quinto (V) Graus, que são as "paisagens" onde a melodia se move:
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Primeiro Grau (I): O ponto de menos tensão (tônica), onde se estabelece o Verso A.
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Quarto Grau (IV): Cria uma tensão intermediária (subdominante), onde o Verso A é repetido.
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Quinto Grau (V): Representa o momento de maior tensão (dominante), no qual se inicia o Verso B (o desfecho e ápice emocional do Chorus).
A harmonia progride do I Grau (menos tensão) para o IV Grau (tensão intermediária), retorna ao I Grau, e caminha para o V Grau (maior tensão) no desfecho. O ciclo se completa com a passagem pelo IV Grau novamente e, finalmente, o Turnaround (I seguido de V), que usa o V Grau para criar a máxima tensão necessária para o recomeço do loop.